terça-feira, 10 de março de 2015

O aprendizado, partindo da concepção de Vygotsky, requer o social para se estabelecer. O homem só é homem através do contato com a humanidade. Não que não seja capaz de sê-lo, que não tenha os meios biológicos para sê-lo, mas falta-lhe o subsídio para sê-lo, que é o contato com o humano.
Daí, pode-se pensar na concepção cíclica do homem em sua humanidade. Como em Nietzsche, em seu eterno retorno, não há origem, não há homem originário. O homem se faz homem sendo homem, vivenciando e compartilhando sua humanidade.
Por outro lado (aí vem a parte dura e cruel da sociedade de classes), vivendo em um determinado grupo social, o indivíduo adquire determinados hábitos típicos e necessários a sua noção de pertencimento. E a sociedade de classes destaca e valoriza (ou desvaloriza) determinados hábitos conforme sua necessidade de sobrepujar o outro, ficando fácil inculcar, através dessa valorização ou desvalorização, a aceitação de determinadas funções e posições sociais.
Lendo Psicologia na Educação de Davis e Oliveira:
Davis, Cláudia; Oliveira, Zilma de Moraes Ramos. Psicologia na Educação. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2010.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Uma coisa me deixou profundamente intrigado com o alarde sobre o número de notas zeros em prova de redação do ENEM de 2014: 529.373.
As pessoas pensam logo em analfabetos, mas, não descartando esta possibilidade, penso em desvio dos critérios atuais que são cobrados para a redação do ENEM. Fato que é diferente de se zerar por não saber escrever, não menos importante, mas diferente.
Vamos aos números:
217.339 fuga do tema;
13.039 copia do texto motivador;
7.824 redação com menos de sete linhas;
4.444 não atender ao tipo textual;
3.362 partes desconectadas;
955 ferir direitos humanos;
1.508 outros motivos.
Totalizando 248.471 candidatos zerados.
Procurei, mas não encontrei o paradeiro dos outros 280.902 candidatos.
Que representa mais da metade deste total dos "zerados".
Bem 529.373 representa 6% dos 8.721.946 inscritos.
Foram 205.514 vagas para o SISU e 213.113 vagas para o Prouni.
Sei que é uma análise numérica grosseira, pois não estou observando quantos concorreram a cada modalidade, não estou observando as vagas de meio de ano, não estou observando o FIES, mas mesmo assim tem-se que menos de 4,8% dos que se propuseram (nem todos os que terminam o Ensino Médio tentam) fazer o ENEM terão direito a fazer um curso com o custeio do Estado. Sendo que menos de 2,4% ingressarão em uma universidade pública. E nem todos terminarão.
É uma pequena elite, infelizmente.
Olhando por este lado, 6% de notas zero na Redação é insignificante.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Passeando pelas provas do ENEM, deparei-me com um gráfico muito interessante.
Fui até a fonte descrita na questão da prova de Matemática de 2013: Nova Escola, São Paulo, dezembro de 2010.
O título do texto: "O valor das férias para a formação cultural dos alunos", trata a importância do horário livre, remetendo tanto ao descanso quanto à diversificação cultural, que me faz lembrar o livro tão falado à época de seu lançamento: "O ócio criativo" de Domênico de Masi.
Eis o gráfico:


 Ele pode ser encontrado em:
<http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/planejamento-e-financiamento/valor-ferias-formacao-cultural-alunos-611957.shtml?page=1>
A questão da prova era: "Dos países com notas abaixo da média nesse exame, aquele que apresenta maior quantidade de horas de estudo é", que tinha como resposta esperada Israel.
A pergunta que deixo é: como os órgãos governamentais, que gostam e endossam tanto os números, justificam a guarda dos filhos dos trabalhadores na escola (pois creio que seja para isso que serve o período mais longo dos jovens na escola), com a falácia da maior eficiência acadêmica?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

“Ensinar o povo a ver criticamente o mundo é sempre uma prática incômoda para os que fundam os seus poderes sobre a inocência dos explorados...”.
Paulo Reglus Neves Freire

Lendo apenas esta frase, percebe-se muito dos motivos para a forma como são conduzidas as políticas públicas em Educação.
Sistemas que concentram ou permite que se concentre poder, faz uso ou é refém de uma dita educação que impede que todas as instâncias da sociedade participe igualitariamente nas decisões do que é comum a ela.
Além disso, aqueles que porventura ousarem desafiar esta lógica cruel, é de alguma forma 'convidado' a se calar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Galera,
Na minha formatura no curso de Educação Física, a Paraninfa, ao proferir sua fala disse algo assim: nesta sociedade dividida por classes, onde alguns obtêm privilégios e outros não, que ela esperava que nós alcançássemos sucesso em nossas escolhas.
Eu acrescento: nessa sociedade, que se diz meritocrática e nós percebemos privilegiar sempre as mesmas castas. E na sua fúria de convencer de que é possível uma ascensão se servirem de alguns excluídos como exemplo para tal propósito, é gratificante ver que temos entre nós pessoas que obtêm pequenos privilégios.
Mas não se enganem, a luta para conquistarmos uma sociedade mais justa pode ser feita usando como arma o próprio objeto de privilégio e não assumindo-o como um fim em si mesmo.
Parabéns aos meus eternos queridos.
Cláudio Barcellos
31 de março de 2013.

Mensagem para os alunos, então ganhadores do Tablet, pelo Estado / Governo Federal, devido ao desempenho acadêmico medido pelo SAERJ.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

"O fato de ocultar ao jovem o papel que a sexualidade terá em sua vida não é a única recriminação que se deve fazer à educação atual. Ela também peca em não prepará-lo para a agressividade, de que ele certamente será objeto. Ao soltar os jovens na vida com uma orientação psicológica tão incorreta, a educação age como quem envia pessoas para expedição polar com roupas de verão e mapas dos lagos italianos. Torna-se aí evidente um certo abuso das exigências éticas. A severidade destas não prejudicaria muito, caso a educação dissesse: 'Assim deveriam ser os homens, para serem felizes e tornarem os outros felizes; mas é preciso ter em conta que eles não são assim'. Em vez disso, fazem o jovem acreditar que todos os demais cumprem as prescrições éticas, que são virtuosos. Nisso é fundamentada a exigência de que ele também o seja."
Freud, O mal-estar na civilização, nota de rodapé nº 30.

Apesar de ter reservas a Freud, quanto a sua visão estrita à sexualidade, aqui vale ressaltar o importante alerta exposto, quanto à necessidade de preparar os alunos pra um mundo perverso em sua manutenção do status quo.
Não falo em menosprezar valores éticos, mas expor a estrutura de dominação em que vivem: agir eticamente, mas preparado para poder não ser recebido da mesma forma.
O mais triste é que nosso sistema escolar simplesmente reproduz a sociedade, de forma a ser, antes a última morada, mais um, talvez o primeiro (quando o próprio lar já não o é) locus de opressão.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Sexta-feira uma aluna querida, talvez meio incomodada com minha insistência em animá-los a fazer uma atividade que reconheço ser difícil, disse:
"Poxa, professor, o senhor acredita mais em nós que nós mesmos!"
Desarmado com o seu dizer, eu somente sorri.
Agora, com um pouco mais de tempo para refletir, vai a minha resposta:
Sabendo do quanto o nosso processo educacional exige um modelo que não cabe a todos. E sabendo, também, que muitos colegas preferem delegar este problema para os alunos. Se eu não tentar reverter isso, fazendo vocês crerem do que vocês REALMENTE são capazes, não me presto a estar ali, ao lado de vocês.
Cláudio Barcellos
9 de junho de 2013.