segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

"O fato de ocultar ao jovem o papel que a sexualidade terá em sua vida não é a única recriminação que se deve fazer à educação atual. Ela também peca em não prepará-lo para a agressividade, de que ele certamente será objeto. Ao soltar os jovens na vida com uma orientação psicológica tão incorreta, a educação age como quem envia pessoas para expedição polar com roupas de verão e mapas dos lagos italianos. Torna-se aí evidente um certo abuso das exigências éticas. A severidade destas não prejudicaria muito, caso a educação dissesse: 'Assim deveriam ser os homens, para serem felizes e tornarem os outros felizes; mas é preciso ter em conta que eles não são assim'. Em vez disso, fazem o jovem acreditar que todos os demais cumprem as prescrições éticas, que são virtuosos. Nisso é fundamentada a exigência de que ele também o seja."
Freud, O mal-estar na civilização, nota de rodapé nº 30.

Apesar de ter reservas a Freud, quanto a sua visão estrita à sexualidade, aqui vale ressaltar o importante alerta exposto, quanto à necessidade de preparar os alunos pra um mundo perverso em sua manutenção do status quo.
Não falo em menosprezar valores éticos, mas expor a estrutura de dominação em que vivem: agir eticamente, mas preparado para poder não ser recebido da mesma forma.
O mais triste é que nosso sistema escolar simplesmente reproduz a sociedade, de forma a ser, antes a última morada, mais um, talvez o primeiro (quando o próprio lar já não o é) locus de opressão.

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